Texto de Ethevaldo Siqueira

Eric Schimidt

Este texto é uma síntese jornalística da palestra proferida pelo presidente do Google, Eric Schmidt, um dos keynote speakers da IFA 2010, em Berlim:

Em sua fase inicial, a internet mostrava quanto o computador poderia fazer por todos nós. Hoje penso um pouco diferente, pois o celular – em especial o smartphone – multiplicou por 1 bilhão o poder do computador.
O que aconteceu após essa explosão da telefonia celular no mundo foi tão impressionante que eu passei a considerar a mobilidade em primeiro lugar. Sim, mobility first. A expansão da internet – e, por consequência a expansão do Google – não tem ocorrido por causa dos computadores, mas porque os celulares mais avançados, os smartphones de hoje, já são tão poderosos quanto os verdadeiros computadores. E funcionam como terminais remotos conectados a supercomputadores.
O que chamamos de cloud computing equivale, na prática, a um imenso supercomputador. E, graças aos smarphones, a informação, o vídeo ou a música estão disponíveis para milhões. A informação e o entretenimento estão diante de cada um de nós, ao alcance de nossa mão. A internet móvel dos celulares de hoje é oito vezes mais rápida do que a internet discada dos desktops do ano 2000. A internet não apenas ocupa um mercado maior, mas cresce de forma muito mais rápida.

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Embora as coisas evoluam de forma tão rápida, acabamos acostumando-nos com a situação, e achamos que essa rede sempre foi assim e sempre esteve ao nosso dispor. Mas não. Ela existe há poucos anos.
Países desenvolvidos como a Alemanha já experimentam o que eu chamo de “conectividade pervasiva”. Imaginem, agora, o que significará a próxima geração de celulares, com a tecnologia LTE (Long Term Evolution ou Evolução de Longo Prazo), a 50 megabits por segundo. No passado, eu sonhava com 1 Mbps, que chegou. De lá para cá, nunca mais fiquei satisfeito. Mas daqui a pouco vamos ter 50 Mbps. Com 50 Mbps, teremos vídeo, real-time streamingvideo on demand (VoD), download de muita imagem e som.
Não se trata apenas de um salto causado pelos smartphones. Nem só pelas redes. Nem só pelas informações que estão por trás de tudo. É muito mais, porque resulta da soma de tudo isso, da ação simultânea das empresas, dos smartphones, das redes de banda larga e da massa descomunal de informações armazenadas num conjunto de supercomputadores.
Na ponta desse gigantesco sistema, estão centenas de milhões de smartphones, de iPhones e de iPads, que rodam milhares de aplicativos, que podem acessar um volume incrível de informações, de dados, de imagens, de músicas. O Google é, ao mesmo tempo, um player e um parceiro nesse processo, armado com ferramentas como o Android, o sistema operacional Chrome, a Google TV e outros serviços.
A rede gigantesca
A internet alcançou dimensões incríveis. Expandiu-se tanto pelo mundo que hoje chega a conectar mais de 35 bilhões de dispositivos ou aparelhos de todos os tipos, comocelulares inteligentes, laptops, desktops, televisores, equipamentos instalados emresidências, empresas e carros.
Insisto neste conceito: cloud computing é algo parecido com um supercomputador, que nos ajuda de forma impressionante quando fazemos tradução de diálogos ou identificação de imagens. Nosso principal terminal de acesso a esse supercomputador é o smartphone. Ele é uma espécie de computador de mão, que envia perguntas e pedidos de informações ao supercomputador. Este, por sua vez, manda de volta a resposta ao nosso pedido, com texto, foto, música ou um vídeo.
Caminhando aqui em Berlim, resolvi ir à catedral católica de St. Hedwig. Apontei osmartphone para a igreja e obtive todas as informações sobre essa catedral, soube que ela foi iniciada no século 15 e terminada em 1905 e muito mais.
Posso fazer isso em outras grandes cidades da Europa e de outros continentes. O que vivi aqui em Berlim é uma incrível experiência. Acho até que é uma forma de inteligência artificial. E esse é um campo em que os computadores têm um grande desempenho.
Existe até uma relação dupla nessa tarefa: o computador faz um bom trabalho e ajuda o ser humano. De seu lado, o ser humano também ajuda o computador. Um ajuda o outro. Ajudamos o computador ao abastecê-lo, dizendo-lhe: isto é um tipo de coisa, aquilo é outro; isto é um tipo de objeto, aquele é outro. E usamos esses sinais como classificadores. E o computador, em contrapartida, mapeia todo o conhecimento.

O mundo ao alcance da mão
Vejam: os aspectos humanos desse cenário já eram pressentidos há alguns anos. Lembro-me de Bill Gates predizer em 1999, numa Comdex, que teríamos no futuro empresas de computação (como o Google), que nos permitiriam ter toda informação do mundo na ponta de nossos dedos, ao alcance de cada ser humano. Exatamente o que está acontecendo agora.
Não é algo fantástico? Hoje podemos saber praticamente tudo. Qualquer coisa que seprecise saber está disponível, aqui e agora. Essa é a grande mudança. Pense no quesignifica isso: podemos ouvir, falar e pensar sobre qualquer assunto ou ponto doconhecimento. E tudo isso é, em última instância, resultado da sinergia e da combinação de dispositivos móveis, de redes e de supercomputadores.

Como o Google faz tudo isso? Mais do que isso: por que faz isso? A cada dia, sentimosalgo paradoxal, porque queremos devolver o tempo às pessoas, dando-lhes aquilo de que elas precisam para se tornarem mais produtivas.
Numa tentativa de definição de nossa empresa, eu diria que o Google quer ser um auxiliar de todo ser humano, para ajudá-lo a fazer as coisas mais rapidamente. Sim: rápido, rápido, rápido. Queremos que tudo seja feito agora, neste minuto, sem perda de tempo, porque o tempo é precioso, vale muito. Time matters.
Fazemos centenas de melhorias nos processos de busca a cada ano. Vocês, usuários, vão conhecendo e usando tudo isso gradativamente. Vão descobrindo novos caminhos, como a tradução automática de textos e de voz. E sabemos que a pesquisa de informação, a busca, é uma necessidade pessoal, de cada usuário, seja para completar um texto, para enviar um e-mail, para localizar uma personalidade histórica, para saber o que está acontecendo em determinado setor da economia ou da cultura.

O que vem por aí
A próxima etapa é a busca automática. O smartphone, que é, na prática, o computador que está em meu bolso, sabe que estou em Berlim e já me dá um conjunto básico de informações úteis, me passa coisas que eu, possivelmente, não saiba, mas que precisaria saber.
Outro aspecto da busca é dar-nos o que realmente importa. Como, por exemplo, saber como está o tempo, se vai chover ou fazer sol, frio ou calor. Se estiver chovendo, devo levar minha capa. Ou não precisarei regar o jardim.
A busca precisa, cada vez mais, focalizar aquilo que as pessoas realmente querem ouprecisam fazer. Ou estão interessadas em saber. O Google quer ser essa ponte entre as pessoas. Essa é nossa missão.
Quando se trata de buscas na área do comércio, temos de responder a perguntas muito mais complexas e refinadas, que exigem recursos de ciências da computação para chegar àquilo que eu ou qualquer pessoa deseja.
Uma de cada três questões propostas nos smartphones se refere ao lugar onde estou, ao meu entorno, à minha localização, a coisas ou pessoas que estão próximas de mim. Por todas essas utilidades e aplicações é que os celulares se expandem numa velocidade superior a qualquer outro produto ou serviço no mundo.

A força do Android
Vocês sabiam que, a cada dia, são ativados 200 mil smartphones com o sistema operacional Android? E não se trata de apenas um modelo de telefone celular ou dispositivo. Já são mais de 60 aparelhos e 59 operadoras em 49 países. E essa presença vai crescer ainda muito mais até o Natal deste ano. Em 2010, o ritmo de crescimento do Android já é 30% maior do que no ano passado. E o tráfego desses telefones triplicará neste ano.
Falando de browsers, relembro que o Chrome, criado pelo Google, já tem mais de 70 milhões de usuários. Não vou entrar em detalhes técnicos, mas posso sintetizar dizendo que o Chrome é a mais rápida e avançada plataforma para navegação na internet hoje.
Vejam o caso do YouTube. É um fenômeno mundial de popularidade, que alcança 2 bilhões de visitas por dia. E mais: a cada minuto são postadas 24 horas de vídeo no YouTube.

Demonstrações
Neste ponto de sua palestra, Eric Schmidt chamou dois de seus especialistas parademonstrações. O primeiro foi Hugo Barra, diretor do Google. No palco, ele fez umademonstração de reconhecimento de voz com seu smartphone. Disse que uma em cada cinco buscas propostas ao Google, hoje, é feita sob a forma de voz. E lembrou que um dos serviços que vem por aí é exatamente o upgrading de reconhecimento de voz, que permite converter mensagem de voz em texto e enviá-la ao destinatário. Para fazer tudo isso, o Google conta com os supercomputadores. Eles estão por trás de tudo, lá no fundo, nos datacenters, na nuvem.
Mais surpreendente é o novo serviço de busca musical por reconhecimento de voz. Hugo Barra pediu a seu smartphone que tocasse uma música (Just Dance) de Lady Gaga. Em segundos, a música está sendo ouvida no celular.
Outra aplicação de grande utilidade que também utiliza o reconhecimento e o comando de voz é a ligação automática, demonstrada por Barra, ao pedir ao seu celular: “Chame o Hotel Grand Hyatt, em Berlim”. Em segundos, o hotel atendeu.
Em seguida, Barra quis localizar, refinar uma informação, e confirmar o nome de um museu de arte egípcia em Berlim, mas não se lembrava. Pediu, então, ao seu smartphone: “Navegue ao museu que trata de arte egípcia”. O smartphone deu a resposta em dois segundos.
Por fim, a demonstração de tradução automática de uma conversa entre um turista e um lojista – cada um deles falando apenas a sua língua-mãe, alemão ou inglês. Tudo funcionou perfeitamente.
Uma das mais impressionantes (e também mais polêmicas) demonstrações foi a vista das ruas, no exemplo, acessada como se o usuário estivesse em Florença, para localizar a Catedral de Santa Croce, mostrada em três dimensões e com as principais informações turísticas sobre sua história.
A segunda pessoa a ser chamada ao palco para fazer demonstrações foi a gerente demarketing de produto do Google, Brittany Bohneh. Ela perguntou: quem compraria hoje um computador, desktop ou laptop, sem um navegador da internet (internet browser)? Ou um smartphone sem um internet browser? A partir de agora, ninguém deverá comprar um televisor sem esse navegador da internet, porque o Google está lançando a sua TV.
Brittany Bohneh demonstrou, então, o que se pode fazer com um browser na televisão, a Google TV, novo aplicativo que está sendo lançado neste final de ano apenas nos EUA – e em 2011 no resto do mundo.

É a Google TV?
Google TV é uma plataforma de software em que o Google conta com a parceria e apoio da Logitech, da Sony e da Dish. Numa explicação bem simplificada, essa TV funciona com a junção de duas partes. Uma delas é o Nexus One, o hardware produzida pela HTC. A outra é o Android, a porção de software criada pelo Google. No fundo, a Google TV é software.
A Google TV é formada por um set-top box da Logitech, um televisor Sony com Blu-rayplayer e uma Dish box. Todos eles compartilham as seguintes especificações: umprocessador Atom, uma GPU discreta, uma saída HDMI, Bluetooth, IR com um blastertransmissor, WiFi e Ethernet, e tudo isso pode ser operado por um teclado e umdispositivo de apontar (laser pointer).
É um dos melhores exemplos de associação entre a internet e a televisão. Entre seusrecursos, ela permite a busca de filmes e shows, oferecendo ao usuário a possibilidade de assistir a esses programas pela TV paga ou pela web. A Google TV vai mais longe,entretanto, permitindo que o telespectador possa assistir a vídeos com o recurso doFlash, ter acesso a notícias, enviar e-mails e personalizar sua tela inicial com seuscanais e sites favoritos.
A Sony exibiu na IFA 2010 um protótipo de HDTV conectado à Google TV, demonstrando que o usuário pode efetuar buscas, acessar videojogos, fotos e controlar o navegador enquanto vê a programação normal da televisão. No modelo de demonstração da Sony, todos os dispositivos da Google TV estavam embutidos no televisor. Todo o controle do serviço era feito pelo controle remoto, já que o televisor não dispunha de teclado.
Outra demonstração interessante de Brittany Bohnet, no palco, foi a de My Music, quepermite a identificação da canção a partir de um trecho da própria melodia.

Ferramentas mágicas
Após as demonstrações, Eric Schmidt retomou sua apresentação:
O que acabamos ver aqui era ficção científica há poucos anos. Aliás, a própria web já produziu o que eu chamo de internet disruption. Isso muda profundamente o mundo em que vivemos e o modo como trabalhamos, produzimos ou nos divertimos. É claro que ela promove,também, o que os estudiosos de economia designam por destruição criativa.

Vejam o papel que a internet passa a ter na economia, oferecendo nova ferramenta para, entre tantas finalidades, enfrentarmos a escassez. A internet é uma plataforma ubíqua, quer dizer, ela está todo o tempo em todo lugar. Assim, ela exerce o papel salutar de reequilibrar a oferta e a demanda sob diversos aspectos.
Qualquer negócio, no passado, tendia a restringir as informações sobre seu setor, paranão revelá-las a seus competidores. A internet abre tudo, escancara tudo, mostra osplayers, seus concorrentes, os preços, as ofertas, as opiniões positivas ou negativas, aavaliação de clientes e competidores, as queixas, os elogios.
Nesse sentido, a internet assusta os grupos dominantes (incumbents). Um produto de um concorrente relativamente pequeno pode alcançar a visibilidade de 1 bilhão de pessoas. E a cada dia mais pessoas estão desejando e precisando dessas informações.
A internet, bem como o Google, estão hoje no centro de muitos debates. Acho que esse debate é saudável, não apenas para as pessoas em geral, mas, também, para nós, do Google. Há aspectos curiosos e relevantes sobre ferramentas como o reconhecimento de voz e a tradução automática, que terão, seguramente, grande impacto sobre as relações comerciais, o intercâmbio cultural, o turismo e a política entre centenas de milhões de pessoas em todos os continentes. O Google tem hoje uma abrangência mundial. Suas informações estão disponíveis em praticamente todas as línguas do mundo.
O Chrome, browser criado pelo Google, já demonstra seu valor em dezenas de aplicativos e serviços, a começar pela Google TV.

Uma Idade de Ouro
Essa ação disruptiva (avassaladora) da internet e seus benefícios – ao mesmo tempodestruidores e criativos – vão continuar. Eu afirmo, no entanto, que estamos vivendo avéspera de uma espécie de Idade de Ouro.
Por que uso essa expressão? Porque essa Golden Age traz inovações formidáveis –verdadeiros breakthroughs. As ciências da computação estão acelerando o conhecimento e a disciplina humana. Isso não significa que os cientistas e a população não tenham preocupações e problemas sérios: como o aquecimento global, terrorismo, a falta de transparência financeira – que são, fundamentalmente, problemas de informação.
Imaginem agora um futuro bem próximo. Em breve, vocês não se esquecerão de nada. Ou, por outras palavras, vocês não terão de lembrar-se de nada. Por quê? Porque o computador relembrará vocês de tudo. Vocês deverão, é claro, lembrar-se de muita coisa, mas não precisam mais fazê-lo. O computador o fará por nós. Nesse sentido, a ajuda do computador é um benefício.
É claro que computador também impõe disciplina, coloca amarras, limites, regras, caminhos e imposições em nossa vida. Isso não é agradável, mas muitas vezes tem de ser feito desse modo.
Hoje ninguém se perde, mesmo estando num local ou país totalmente desconhecido. Você sempre pode saber exatamente onde está, que caminhos seguir para chegar a um destino, numa cidade ou país estranho. Seu carro já é quase capaz de dirigir-se por si próprio. Com sensores, o automóvel sabe onde está, sabe quais são os outros carros que estão à sua frente ou atrás.

Tudo em todas as línguas
Graças às telecomunicações e às novas tecnologias digitais, assistimos a uma verdadeira explosão de telemetria em tempo real. Ela é, também, resultado de uma fantástica disponibilidade de informação, de terabytes e mais terabytes.
As informações sobre o planeta – Google Earth e Google Maps – colocam hoje o máximo de informações sobre a Terra ao alcance de qualquer pessoa em qualquer língua. Há pessoas que gostam mais do Google Earth. E isso tem sentido, porque se trata de nosso planeta, nosso único planeta. Outras gostam mais do Google Maps.
O fato essencial é que o mundo dispõe hoje de todo tipo de informação em qualquer língua. É impressionante que os serviços de tradução já são consultados por 62 milhões de pessoas a cada dia.
Embora possa chocar os americanos, temos de reconhecer que o mundo não fala inglês.Talvez um em cada dez habitantes da Terra fale efetivamente inglês. Logo, temos deoferecer essa ferramenta da tradução automática para incluir os 90% dos internautas que não dominam a língua inglesa. Sob outro ângulo, isso pode surpreender a todos vocês: quanta informação existe no mundo escrita em línguas que vocês não falam nem conhecem?
Diante dessa explosão do conteúdo, dessa avalanche de informação, muita gente sepergunta: que devo fazer, ou melhor, o que estou fazendo? Minha resposta: faça o que é mais relevante. Selecione o que realmente vale a pena ver ou fazer. Em lugar de desperdiçar seu tempo vendo TV, desperdice-o navegando na internet, onde vocês têm muito maior variedade de assuntos. Educação e divertimento estão muito mais próximos na internet. Você tem mais música, mais filmes, mais vídeos. Saiba também o que o seu filho está vendo, e passe a ter mais cuidado.
A boa notícia é que a internet não interessa apenas nem diz respeito exclusivamente ao futuro das elites. Essa tecnologia se tornará acessível a cada pessoa, a cada habitante deste planeta. O número de internautas já ultrapassa 1 bilhão. Em menos de cinco anos, calculo, serão 3 ou 4 bilhões. Isso é uma mudança tremenda em termos de acesso à informação.
Esse é o futuro que interessa de perto ao Google. E, é claro, interessa ainda mais àspessoas, porque diz respeito à sua informação, ao seu conhecimento, às suas intuições, aos seus sentimentos, às suas ideias. Essa internet do futuro, estou certo, falará ou cuidará cada vez mais de pessoas, da sociedade, dos problemas humanos.

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